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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

CRÍTICA: ANTIGA CASA DE CLARICE LISPECTOR ESTÁ ABANDONADA



publicado por: Antonio Neto - 09-01-2015


Navegando na rede social, encontramos uma crítica bastante pertinente e decidimos compartilhar aqui no VIVA. Trata-se da opinião de Albanise Pires, militante cultural, amante da escritora ucraniana/pernambucana Clarice Lispector. 

Albanise retrata a realidade de como se encontra a antiga casa da renomada escritora. Estamos atentos à realidade turística e cultural de Pernambuco e fazemos questão de buscar melhorias para o nosso patrimônio!

Conversamos com a Albanise e ela cedeu sua crítica ao VIVA, a qual compartilhamos na íntegra:

" Quem me acompanha já percebeu o quanto gosto das poesias de Clarice Lispector, pois vivo publicando por aqui. Não sei se tod@s sabem, mas há 90 anos essa maravilhosa poetisa foi moradora do bairro da Boa Vista, numa linda casa em frente à Praça Maciel Pinheiro, em Recife. Ontem tive a curiosidade de ir ver como se encontra a casa e fui surpreendida com as terríveis condições de total abandono. A fachada e paredes laterais ainda se encontram de pé, mesmo com a descaracterização da fachada do térreo, mas o pior é que por dentro não existe mais nada. A estátua de Clarice na praça não tem nenhuma referência nem a ela e nem à casa. Este é mais um retrato do abandono das nossas tradições culturais!

Com tantos saraus acontecendo na cidade e sendo o Recife uma capital multicultural, de tantas tradições artísticas, uma casa linda e bem localizada como esta não poderia estar abandonada. Poderia ser um espaço de exposição das poesias da ex-moradora (um museu, por ex.), um espaço de encontro d@s poetas/poetisas, com promoção de que saraus periódicos. Enfim, um espaço de promoção cultural, tão necessário na nossa cidade!"

fonte: vivapeturismo.com.br




segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

AS TRÊS EXPERIÊNCIAS - CLARICE LISPECTOR



Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O "amar os outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por quê, foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.

Quanto aos meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência, e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha. É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.

Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair
e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo
aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.
Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

Espero em Deus não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter algo no futuro.
O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se
esta minha vida fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer será um dos atos mais importantes de minha vida. Eu tenho medo de morrer: não sei que nebulosas e vias-lácteas me esperam. Quero morrer dando ênfase à vida e à morte.

Só peço uma coisa: na hora de morrer eu queria ter uma pessoa amada por mim ao meu lado para me segurar a mão. Então não terei medo, e estarei acompanhada quando atravessar a grande passagem. Eu queria que houvesse encarnação: que eu renascesse depois de morta e desse a minha alma viva para uma pessoa nova. Eu queria, no entanto, um aviso. Se é verdade que existe uma reencarnação, a vida que levo agora não é propriamente minha: uma alma me foi dada ao corpo.

Eu quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum
e interessada, e não saberei que nesta encarnação fui eu que os escrevi. Está-me faltando um aviso, um sinal. Virá como intuição? Virá ao abrir um livro? Virá esse sinal quando eu estiver ouvindo música?

Uma das coisas mais solitárias que eu conheço é não ter a premonição.

Clarice Lispector in A Descoberta do Mundo



terça-feira, 10 de junho de 2014

ESTÁTUA DE CLARICE LISPECTOR NO RIO


Famosos apoiam abaixo assinado para colocar estátua de Clarice Lispector no Leme



Moradora histórica do bairro do Leme, no Rio de Janeiro, a escritora Clarice Lispector (1920-1977) pode ganhar uma estátua para chamar de sua nas imediações. Famosos e moradores se reuniram neste domingo (08) para fazer um abaixo assinado fazendo o pedido para a prefeitura da cidade.
Beth Goulart, que interpretou a escritora no teatro na peça Simplesmente Eu, Clarice Lispector, compareceu ao evento e assinou, assim como a atriz Zezé Motta, que reside no mesmo prédio que Clarice morou.
Além delas, apareceram para assinar o abaixo-assinado a astróloga Leiloca, a autora de novelas da Globo Licia Manzo e a bailarina Ana Botafogo.
Clarice Lispector é um dos maiores nomes da literatura brasileira, mas voltou a ficar conhecida, principalmente para as gerações mais novas, por citações na internet que não necessariamente são de sua autoria.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

VISÃO DE CLARICE LISPECTOR - POEMA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



Visão de Clarice Lispector

Clarice,




veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia… saberemos amar Clarice.



Carlos Drummond de Andrade                        

** Homenagem de Carlos Drummond de Andrade na voz de Jacqueline Laurence.


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domingo, 8 de dezembro de 2013

O aniversário de Clarice Lispector - publicado por JORNALGGN.COM.BR

O aniversário de Clarice Lispector

da Folha de S.Paulo - 08/12/2012 
A escritora Clarice Lispector posa para foto em Berna, na Suíça
Não é de hoje que Clarice Lispector está na moda, mas nos próximos dias parece que todos os olhos estarão voltados para a dona dos olhos mais sedutores e misteriosos da literatura brasileira.
No Brasil, nos últimos anos, vida e obra da autora foram esquadrinhadas em livros que reúnem suas correspondências, frases, textos esparsos, entrevistas e crônicas feitas para suplementos femininos.A romancista brasileira de origem ucraniana (1920-1977), que completaria 92 anos na segunda, vai receber diversas homenagens pelo país durante a segunda edição do evento "Hora de Clarice" (veja quadro ao lado).
Nos Estados Unidos e na Europa, novas traduções de seus livros vêm despertando a atenção de críticos e leitores.
Uma pesquisa do programa Conexões Itaú Cultural sobre a presença da literatura brasileira no exterior, realizada com 236 pesquisadores, aponta que Clarice é o segundo nome da literatura brasileira mais estudado no mundo. Só perde para outro gigante nacional, Machado de Assis.
Nas redes sociais, ela é campeã de citações. Mas tanta popularidade tem seus custos: muitos dos textos ou frases atribuídos à escritora são deturpações ou puras invenções.
Pois, também em reação a isso, o IMS (Instituto Moreira Salles) lança nesta segunda uma um site especial sobre a escritora (www.claricelis
pectorims.com.br).
"Clarice tem sido muito castigada pela internet. Por isso tivemos a ideia de lançar um site de qualidade, que seja uma referência para estudiosos e os leitores em geral", comenta o poeta Eucanaã Ferraz, consultor de literatura do IMS (Instituto Moreira Salles) e organizador do projeto.
O portal trará uma lista com todos os livros escritos sobre Clarice, textos de especialistas sobre seus principais trabalhos e uma cronologia ilustrada de sua vida e obra.
O ensaísta José Miguel Wisnik gravou uma aula sobre o romance "A Hora da Estrela", com quase duas horas de duração, que ficará disponível no site. Além disso, o IMS, que cuida do acervo da escritora, vai publicar manuscritos de romances e de um caderno de viagem da autora.
Também será possível comparar longos trechos de livros como "A Paixão Segundo G.H." em diferentes línguas.
"As informações sobre Clarice na internet estavam muito dispersas. Reunir todo esse material ajudará a jogar luz sobre a escritora, romper os clichês e compreender melhor a obra dela", diz Ferraz.
JORNALISMO
A professora Aparecida Maria Nunes também lança na segunda o livro "Clarice na Cabeceira - Jornalismo". Há mais de 30 anos pesquisando a autora de "Perto do Coração Selvagem", Nunes conta que a trajetória de Clarice na imprensa foi muito maior do que se imaginava.
De "Triunfo", em 1940, primeiro trabalho de que se tem notícia que publicou, até 1977, produziu 300 crônicas, 450 colunas na imprensa femininas e quase cem entrevistas.
"Muitos desses textos funcionavam como laboratório para o trabalho que ela iria desenvolver depois em seus romances e contos", explica.
Nos EUA, a onda de interesse em Clarice foi capitaneada por Benjamin Moser, biógrafo da escritora.
Ele edita uma série que já traduziu cinco livros da autora para o inglês: "Perto do Coração Selvagem", "A Paixão Segundo G.H.", "Água Viva", "Um Sopro de Vida" e "A Hora da Estrela".
"Clarice está editada nos EUA desde os anos 1960, mas em traduções em geral ruins, para um público menorzinho. Nunca 'pegou'. Agora o perfil está mudando. Até quem não leu ainda sabe quem é. É um começo", diz Moser.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

RESENHA DA MAIS NOVA BIOGRAFIA DE CLARICE LISPECTOR NA SPECTATOR (english)



A centenária e conservadora revista britânica, The Spectator, publicou, no dia 11/1, uma resenha da recém-lançada biografia de Clarice Lispector:


do The Spectator
'She's the most important Jewish writer since Kafka!'Clarice Lispector is revered in Brazil. Benjamin Moser's fascinating biography deserves to make her much better known here
January 2014 The young Clarice Lispector was strikingly beautiful, with catlike green eyes and ‘very, very sexy’, remembered a friend
The young Clarice Lispector was strikingly beautiful, with catlike green eyes and ‘very, very sexy’, remembered a friend
Why This World: A Biography of Clarice Lispector Benjamin Moser
Penguin Books, pp.479, £12.99, ISBN: 9781846147814
The Brazilian novelist Clarice Lispector was a riddlesome and strange personality. Strikingly beautiful, with catlike green eyes, she died in Rio de Janeiro in 1977 at the age of only 57. Some said she wrote like Virginia Woolf (not necessarily a recommendation) and resembled Marlene Dietrich. She was ‘very, very sexy’, remembered a friend. Yet she needed a great many cigarettes, painkillers, anti-depressants, as well as anti-psychotics and sleeping pills to get through her final years. Lispector had great fortitude over her illness, it was said, and suffered the ravages of ovarian cancer equably and without complaint.
According to her biographer Benjamin Moser, Lispector’s was a life fraught with the shadow of past failures and past sorrows. Born in 1920 in what is now Ukraine, she emerged from the world of East European orthodox Jewry with its sidelocks, kaftans and Talmudic mysticism. Dreadfully, her mother had been gang-raped by Russian soldiers during the pogroms that followed the Bolshevik Revolution of 1917; her grandfather had earlier been murdered. Even by the standards of Russian anti-Semitism, the family’s was an unusually wretched story of immigration.
In the winter of 1921, harried by thieving Jew-baiters and other opportunists, the Lispectors fled their home for the New World. On arrival in northeast Brazil, they scraped a pittance through teaching and odd jobs. Clarice (born Chaya) Lispector was barely one year old when she reached Brazil; in her adult years, not surprisingly, she liked to claim the country as her spiritual home and the place where the Portuguese-language writer in her was born.
Her fiction is haunted by her family history of uprooting and exile, says Moser. The atrocities and expulsions suffered by Ukrainian Jewry after the first world war had engendered a thoroughgoing scepticism and mistrustfulness in Lispector. In coming to Brazil with her parents and two older sisters she knew she had escaped a great danger. Assimilation into Brazilian society promised an escape from the sorrows and derision of the past, so the Lispectors decided to change their names to sound less Yiddish and more Portuguese. Though Clarice would never again set foot in her native Ukraine, her writing gave covert expression to the displacement and wretchedness felt by emigrés everywhere, Moser suggests.
Among the first to ‘discover’ Lispector had been the American poet Elizabeth Bishop, who in 1963 wrote to Robert Lowell: ‘I not only like her stories very much but like her, too.’ Bishop (who had been living in Brazil since 1951) proclaimed Lispector ‘better’ even than the Argentine fabulist Jorge Luis Borges, and set about translating her into English. Since then, Lispector has been championed by, among others, Edmund White, Orhan Pamuk and Colm Tóibín. Yet she remains unknown to the general reader (I, for one, had never heard of her). Why is that? I asked my Brazilian friend Marcelo Bratke, the concert pianist, if he knew of Lispector. ‘What? Lispector is highly regarded here. She’s the most important Jewish writer since Kafka!’
Though Penguin are currently bringing out her novels as Modern Classics, Lispector has clearly not found her place in the literary canon. Her first novel, Near to the Wild Heart, published in 1943, took its title from a line in James Joyce and discomfited Brazil’s parochial literary establishment with its determinedly modernist cut and surreal, unsmiling humour. Overnight, Lispector became a succès d’estime and was idolised by the young. Intrigued by her movie-star allure, Brazilians claimed Lispector as one of their own, even if her ‘Brazilianness’ seemed to be overlaid by something strange. A part of Lispector was anchored in a cold northern soil somewhere in Russia, where the people had black bog earth on their boots and lived hard, stoical lives.
In the not-quite Brazil that Lispector embodied was a woman at once familiar and foreign to her Latin American readership. In her trademark dramatic makeup and outsize jewelry, she could easily pass for a Copacabana Beach grande dame. Lispector even wrote a Miss Manners-type newspaper column under the pseudonym Helen Palmer, which advised socialite women on which face cream to use. In the early 1960s, true to form, she embraced Rio’s new dance beat called bossa nova, whose underlying air of sadness possibly appealed to the unappeased yearning in her to return to Russia. The Brazilian diplomat-poet Vinicius de Moraes (who wrote the lyrics to Tom Jobim’s desperately sad ‘The Girl from Ipanema’) was among Lispector’s circle, as was, later, the Bahia-born songwriter Caetono Veloso.
Just as bossa nova borrowed from samba, West Coast jazz and the sparsities of Chopin, so Lispector borrowed from Joyce, Hermann Hesse, Jewish mysticism and (by her own account) Georges Simenon. These borrowings were typically Brazilian. In a now-famous book of 1928, the country’s leading modernist poet Oswald de Andrade had defined Brazilian literature as anthropophagic, or cannibalistic, ‘eating’ other forms of European and African writing. Lispector’s fiction conformed to the ideal admirably. Her 1963 masterwork, The Passion According to G.H, is brocaded with a range of literary influences from Kafka to the Bible. (Moser claims it as ‘one of the great novels of the 20th century’.)
The last two decades of Lispector’s life were riven by tragedy. Having left her foreign office husband Maury Valente in 1959, she brought up her two young sons in Rio with the help of a live-in maid. The youngest, Pedro, developed full-blown schizophrenia for which he was subjected to insulin-shock therapy. Lispector found that there were sights and sounds in the world outside that neither she nor her son could tolerate. One day in 1966 she accidently set fire to her apartment with a lit cigarette and was left with a burned, claw-like right hand for the rest of her days. When not dozing through a haze of tranquilliser pills, she found solace in translating Agatha Christie into Portuguese.
Moser, a young Texan-born author and critic, has chronicled one of the strangest literary careers of the 20th century with scholarship and sympathy. Once you pick up his spellbinding and endlessly fascinating biography, you will have to read it straight through, even if Clarice Lispector means almost nothing to you as a name.
Available from the Spectator Bookshop, £10.99. Tel: 08430 600033
This article first appeared in the print edition of The Spectator magazine, dated 

domingo, 6 de outubro de 2013

Clarice Lispector entrevistando Tom Jobim - publicado no jornalggn.com.br



Do Jobim.com.br
3 de julho de 1971
Tom Jobim foi o meu padrinho no I Festival de Escritores, não lembro em que ano, no lançamento de meu romance "A maçã no escuro". E na nossa barraca ele fazia brincadeiras: segurava o livro na mão e perguntava:
- Quem compra? Quem quer comprar?
Não sei, mas o fato é que vendi todos os exemplares.
Um dia, faz algum tempo, Tom veio me visitar: há anos que não nos víamos. Era o mesmo Tom: bonito, simpático, com o ar de pureza que ele tem, com os cabelos meio caídos na testa. Um uísque e conversa que foi ficando mais séria. Reproduzirei literalmente nossos diálogos (tomei notas, ele não se incomodou).
- Tom, como é que você encara o problema da maturidade?
- Tem um verso do Drummond que diz: "A madureza, esta horrível prenda..." Não sei Clarice, a gente fica mais capaz, mas também mais exigente.
- Não faz mal, a gente exige bem.
- Com a maturidade, a gente passa a ter consciência de uma série de coisas que antes não tinha, mesmo os instintos, os mais espontâneos passam pelo filtro. A polícia do espaço está presente, essa polícia que é a verdadeira polícia da gente. Tenho notado que a música vem mudando com os meios de divulgação, com a preguiça de se ir ao Teatro Municipal. Quero te fazer esta pergunta a respeito da leitura de livros, pois hoje em dia estão ouvindo televisão e rádio de pilha, meios inadequados. Tudo o que escrevi de erudito e mais sério fica na gaveta. Que não haja mal-entendido: a música popular, considero-a seríssima. Será que hoje em dia as pessoas estão lendo como eu lia quando garoto, tendo o hábito de ir para a cama com um livro antes de dormir? Porque sinto uma espécie de falta de tempo da humanidade - o que vai entrar mesmo é a leitura dinâmica. Que é que você acha?
- Sofro se isso acontecer, que alguém leia meus livros apenas no método do vira-depressa-a-página dinâmico. Escrevi-os com amor, atenção, dor e pesquisa e queria de volta como mínimo uma atenção completa. Uma atenção e um interesse como o seu, Tom. E no entanto o cômico é que eu não tenho mais paciência de ler ficção.
- Mas aí você está se negando, Clarice!
- Não, meus livros, felizmente para mim, não são superlotados de fatos, e sim da repercussão dos fatos no indivíduo. Há quem diga que a música e a literatura vão acabar. Sabe quem disse isso? Henry Miller. Não sei se ele queria dizer para já ou para daqui a 300 ou 500 anos. Mas eu acho que nunca acabarão.
Riso feliz de Tom:
- Pois eu, sabe, também acho!
- Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita é como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal.
- E mineral também, e vegetal também! (Ele ri.) Acho que sou um músico que acredita em palavras. Li ontem o teu O búfalo e A imitação da rosa.
- Sim, mas é a morte às vezes.
- A morte não existe, Clarice. Tive uma experiência que me revelou isso. Assim como também não existe o eu nem o euzinho nem o euzão. Fora essa experiência que não vou contar, temo a morte 24 horas por dia. A morte do eu, eu te juro, Clarice, porque eu vi.
- Você acredita na reencarnação?
- Não sei. Dizem os hindus que só entende de reencarnação quem tem consciência das várias vidas que viveu. Evidentemente, não é o meu ponto de vista: se existe reencarnação, só pode ser por um despojamento.
Dei-lhe então a epígrafe de um de meus livros: é uma frase de Bernard Berenson, crítico de arte: "Uma vida completa talvez seja aquela que termina em tal identificação com o não-eu que não resta um eu para morrer."
- Isto é muito bonito - disse Tom - é o despojamento; Caí numa armadilha porque sem o eu, eu me neguei. Se nos negamos qualquer passagem de um eu para outro, o que significa reencarnação, então a estamos negando.
- Não estou entendendo nada do que estamos falando mas faz sentido. Como podemos falar do que não entendemos! Vamos ver se na próxima reencarnação nós dois nos encontraremos.
10 de julho de 1971
Depois falamos sobre o fato de que a sociedade industrial organiza e despersonaliza demais a vida. E se não cabia aos artistas o papel de preservar não só a alegria do mundo como a consciência do mundo.
- Sou contra a arte de consumo. Claro, Clarice, que eu amo o consumo... Mas do momento em que a estandardização de tudo tira a alegria de viver, sou contra a industrialização. Sou a favor do maquinismo que facilita a vida humana, jamais a máquina que domina a espécie humana. Claro, os artistas devem preservar a alegria do mundo. Embora a arte ande tão alienada e só dê tristeza ao mundo. Mas não é culpa da arte porque ela tem o papel de refletir o mundo. Ela reflete e é honesta. Viva Oscar Niemeyer e viva Vila-Lobos! Viva Clarice Lispector! Viva Antônio Carlos Jobim! A nossa é uma arte que denuncia. Tenho sinfonias e músicas de câmara que não vêm à tona.
- Você não acha que é seu dever o de fazer a música que sua alma pede? Pelas coisas que você disse, suponho que significa que o nosso melhor está dito para as elites?
- Evidentemente que nós, para nos expressarmos, temos que recorrer à linguagem das elites, elites estas que não existem no Brasil... Eis o grande drama de Carlos Drummond de Andrade e Vilas-Lobos.
- Para quem você faz música e para quem eu escrevo, Tom?
- Acho que não nos foi perguntado nada a respeito e, desprevenidos, ouvimos no entanto a música e a palavra, sem tê-las realmente aprendido de ninguém. Não nos coube a escolha: você e eu trabalhamos sob uma inspiração. De nossa ingrata argila de que é feito o gesso. Ingrata mesmo para conosco. A crítica que eu faria, Clarice, nesse confortável apartamento no Leme, é de sermos seres rarefeitos que só se dão em determinadas alturas. A gente devia se dar mais, a toda hora, indiscriminadamente. Hoje quando leio uma partitura de Stravinsky ainda mais sinto uma vontade irreprimível de estar com o povo, embora a cultura jogada fora volte pelas janelas - estou roubando C.D.A.
- Talvez porque nós todos sejamos parte de uma geração quem sabe se fracassada?
- Não concordo absolutamente.
- É que sinto que nós chegamos ao limiar de portas que estavam abertas - e por medo ou pelo que não sei, não atravessamos plenamente essas portas. Que no entanto têm nelas já gravado o nosso nome. Cada pessoa tem uma porta com seu nome gravado, Tom, e é só através dela que essa pessoa perdida pode entrar e se achar.
- Batei e abrir-se-vos-á.
- Vou confessar a você, Tom, sem o menor vestígio de mentira: sinto que se eu tivesse tido coragem mesmo, eu já teria atravessado a minha porta, e sem medo de que me chamassem de louca. Porque existe uma nova linguagem, tanto a musical quanto a escrita, e nós dois seríamos os legítimos representantes das portas estreitas que nos pertencem. Em resumo e sem vaidade: estou simplesmente dizendo que nós dois temos uma vocação a cumprir. Como se processa em você a elaboração musical que termina em criação?
- Estou simplesmente misturando tudo mas não é culpa minha, Tom, nem sua: é que nossa conversa está meio psicodélica.
- A criação musical em mim é compulsória. Os anseios de liberdade nela se manifestam.
- Liberdade interna ou externa?
- A liberdade total. Se como homem fui um pequeno-burguês adaptado, como artista me vinguei nas amplidões do amor. Você desculpe, eu não quero mais uísque por causa de minha voracidade, tenho é que beber cerveja porque ela locupleta os grandes vazios da alma. Ou pelo menos impede a embriaguez súbita. Gosto de beber só de vez em quando. Gosto de tomar uma cerveja mas de estar bêbado não gosto.
Foi devidamente providenciada a ida da empregada para comprar cerveja.
17 de julho de 1971

- Tom, toda pessoa muito conhecida, como você, é no fundo o grande desconhecido. Qual é a sua face oculta?
- A música. O ambiente era competitivo, e eu teria que matar meu colega e meu irmão para sobreviver. O espetáculo do mundo me soou falso. O piano no quarto escuro me oferecia uma possibilidade de harmonia infinita. Esta é a minha face oculta. A minha fuga, a minha timidez me levaram inadvertidamente, contra a minha vontade, aos holofotes do Carnegie Hall. Sempre fugi do sucesso, Clarice, como o diabo foge da cruz. Sempre quis ser aquele que não vai ao palco. O piano me oferecia, de volta da praia, um mundo insuspeitado, de ampla liberdade - as notas eram todas disponíveis e eu antevi que se abriam os caminhos, que tudo era lícito, e que poderia ir a qualquer lugar desde que fosse inteiro. Sùbitamente, sabe, aquilo que se oferece a um menor púbere, o grande sonho de amor estava lá e este sonho tão inseguro era seguro, não é Clarice ? Sabe que a flor não sabe que é flor ? Eu me perdi e me ganhei, enquanto isso sonhava pela fechadura com os seios de minha empregada. Eram lindos os seios dela através do buraco da fechadura.
- Tom, você seria capaz de improvisar um poema que servisse de letra para uma canção?
Ele assentiu e, depois de uma pequena pausa, me ditou o que se segue:
Teus olhos verdes são maiores que o mar.
Se um dia eu fosse tão forte quanto você eu te desprezaria e viveria no espaço.
Ou talvez então eu te amasse.
Ai! que saudades me dá da vida que nunca tive!
- Como é que você sente que vai nascer uma canção?
- As dores do parto são terríveis. Bater com a cabeça na parede, angústia, o desnecessário do necessário, são os sintomas de uma nova música nascendo. Eu gosto mais de uma música quanto menos mexo nela. Qualquer resquício de savoir-faire me apavora.
- Gauguin, que não é meu predileto, disse uma coisa que não se deve esquecer, por mais dor que ela nos traga. É o seguinte: "Quando tua mão direita estiver hábil, pinta com a esquerda; quando a esquerda ficar hábil, pinta com os pés". Isso responde ao seu terror do savoir-faire?
- Para mim a habilidade é muito útil mas em última instância a habilidade é inútil. Só a criação satisfaz. Verdade ou mentira, eu prefiro uma forma torta que diga, do que uma forma hábil que não diga.
- Você é quem escolhe os intérpretes e os colaboradores?
- Quando posso escolher intérpretes, escolho. Mas a vida veio muito depressa. Gosto de colaborar com quem eu amo, Vinícius, Chico Buarque, João Gilberto, Newton Mendonça, etc. E você?
- Faz parte de minha profissão estar mesmo sempre sòzinha, sem intérpretes e sem colaboradores. Escute, todas as vezes em que eu acabei de escrever um livro ou um conto, pensei com desespero e com toda a certeza de que nunca mais escreveria nada. Você, que sensação tem quando acaba de dar à luz uma canção?
- Exatamente a mesma. Eu sempre penso que morri depois das dores do parto.
Veio a cerveja.
- A coisa mais importante do mundo é o amor, a coisa mais importante para a pessoa como indivíduo é a integridade da alma, mesmo que no exterior ela pareça suja. Quando ela diz que sim, é sim, quando ela diz que não, é não. E durma-se com um barulho desses. Apesar de todos os santos, apesar de todos os dólares. Quanto ao que é o amor, amor é se dar, se dar, se dar. Dar-se não de acordo com o seu eu - muita gente pensa que está se dando e não está dando nada - mas de acordo com o eu do ente amado. Quem não se dá, a si próprio detesta, e a si próprio se castra. Amor sozinho é besteira.
- Houve algum momento decisivo na sua vida?
- Só houve momentos decisivos na minha vida. Inclusive ter de ir, aos 36 anos, aos Estados Unidos, por força do Itamarati, eu que gostava já nessa época de pijama listrado, cadeira de balanço de vime, e o céu azul com nuvens esparsas.
- Muitas vezes, nas criações em qualquer domínio, podem-se notar tese, antítese e síntese. Você sente isso nas suas canções? Pense.
- Sinto demais isso. Sou um matemático amoroso, carente de amor e de matemática. Sem forma não há nada. Mesmo no caótico há forma.
- Quais foram as grandes emoções de sua vida como compositor e na sua vida pessoal?
- Como compositor nenhuma. Na minha vida pessoal, a descoberta do eu e do não-eu.
- Qual é o tipo de música brasileira que faz sucesso no exterior?
- Todos os tipos. O Velho Mundo, Europa e Estados Unidos estão completamente exauridos de temas, de força, de virilidade. O Brasil, apesar de tudo, é um país de alma extremamente livre. Ele conduz à criação, ele é conivente com os grandes estados da alma. 

domingo, 15 de setembro de 2013

Clarice Lispector terá vida recontada em filmes - reportagem by ggn com br

Da Radio Nederland Wereldomroep
“Eu faço tudo por Clarice.” A frase, dita com sincera paixão, é do norte-americano radicado na Holanda Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector. Depois de lançar em 2009 a biografia ‘Why this World’ – publicada no Brasil com o título ‘Clarice,’ -, Moser agora está à frente de mais um grande projeto sobre a escritora. Na verdade dois grandes projetos: dois filmes contando a vida de Clarice Lispector. Um documentário e um longa-metragem baseado em sua trajetória.
“Sempre foi um sonho meu, mas a ideia veio de um produtor em Mônaco que me contatou quando viu um artigo sobre meu livro e ficou apaixonado pela foto da Clarice. Ele leu a matéria, depois leu meu livro e me ligou dizendo: ‘a gente tem que fazer alguma coisa sobre essa mulher’. E é claro que eu não precisava ser convencido, porque eu acho Clarice um assunto maravilhoso para um filme”, conta Benjamin Moser, que participa dos dois projetos como produtor executivo.
BBC
“O primeiro filme, que é um longa metragem, está bem encaminhado. A gente contratou esta semana os roteiristas, que são ingleses. A outra novidade é que a gente foi contatado pela BBC pra fazer um documentário sobre a vida dela na televisão inglesa. Isso pra mim é uma emoção muito grande, porque o que acontecer na BBC também será visto em vários outros países, então eu estou esperando que a partir disso vamos ter a Clarice na Rússia, na Grécia, na Coreia... Levar a história dela para ainda mais lugares.”
A previsão é de que o documentário esteja pronto no final deste ano. Já o longa-metragem terá o roteiro pronto em junho, e a expectativa é de que o filme seja produzido até o ano que vem. Moser pretende que o projeto seja o mais internacional possível, já que um de seus principais objetivos é tornar a escritora mais conhecida fora do Brasil.
“Meu sonho é levar Clarice para fora, para torná-la mais lida e mais conhecida. Porque isso levou muitos anos no Brasil. A Clarice foi uma coisa de minoria na vida dela”, comenta Moser. “Ela foi lida pelos círculos intelectuais e artísticos no Rio, São Paulo. Mas foi realmente depois da morte que ela se tornou popular. E isso foi na língua dela, na terra dela. Então, pra fazê-lo fora, primeiro temos que ter as traduções. A gente está lançando agora nos Estados Unidos mais quatro traduções em inglês, que eu ajudei a fazer, e que eu acho que ficaram ótimas. Eu tenho o maior orgulho disso. Eu acho que vai ser uma revolução mesmo quando as pessoas virem o que é Clarice Lispector. Porque até agora as traduções eram muito instáveis – tem algumas boas, tem algumas muito ruins, todas com vozes diferentes.”
Muitas Clarices
Apesar de estar entrando num mundo completamente novo - o do cinema -, Benjamin Moser vê a empreitada como uma continuação de seu caminho de muitos anos no encalço de Clarice. Depois de ter feito seu próprio perfil da escritora, ele se confessa encantado com a ideia de redescobri-la por novos olhos e novas interpretações.

“‘Clarice,’ foi a minha visão de Clarice, e acho que vai ser muito interessante agora ver como uma atriz de outro país interpreta Clarice, como um roteirista inglês interpreta Clarice, como um diretor brasileiro, por exemplo, interpreta Clarice. Cada leitor tem a sua Clarice e vamos ter uma multiplicidade de Clarices que eu acho que vai ser muito interessante.”
Seu desejo é que o filme tenha repercussão mundial, o que pode ser conseguido com um nome de peso no papel principal, por exemplo. Moser diz que já tem alguns nomes em mente, mas prefere não comentar enquanto não tiver nada confirmado, e desmente boatos divulgados pela imprensa no Brasil:
“A mentira que circulava no Brasil sobre a Meryl Streep eu posso desmentir de novo. Mas temos ideias, sim, sobre atriz, diretor, sobre vários componentes. Falando da Meryl Streep, eu acho que teria que ser uma pessoa mais nova, porque Clarice morreu aos 56 anos e acho que a Meryl Streep já tem 64. Queremos alguém que possa interpretar Clarice jovem e também a Clarice madura. Acho que tem muita gente que gostaria de fazer um papel destes, então acredito que não vamos ter problema em encontrar uma pessoa de qualidade.”
  •  (c) Mariângela Guimarães - www.rnw.nlBenjamin Moser: “Meu sonho é levar Clarice para fora, para torná-la mais lida e mais conhecida."
    © Foto: (c) Mariângela Guimarães - www.rnw.nl